| Entrevista com Roberto Gomez Bolaños - revista Veja de 20/10/1999 |
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"Chaves é uma criança com fome" |
| Graças ao personagem Chaves, de enorme apelo entre
as crianças, o mexicano Roberto Gomez Bolaños, de 70 anos, ficou conhecido em
120 países. No Brasil, o programa Chaves passa há dezesseis anos no SBT e é
até hoje a maior audiência nas tardes da emissora, com a média de 11 pontos
no Ibope. O canal de Sílvio Santos acaba de comprar um pacote de programas inéditos,
que serão exibidos no ano que vem com o nome de Clube do Chaves. No México, o
humorista está aposentado da televisão há cinco anos. Hoje roda o país
fazendo um espetáculo humorístico de teatro em que aparece sem fantasia.
"Não tenho mais a mesma desenvoltura e agilidade do passado", diz. Na
Cidade do México, Bolaños vive em uma confortável casa de 300 metros
quadrados, onde mora com a esposa, Florinda Meza (a Dona Florinda de Chaves),
ex-mulher de Carlos Villagrán, o rechonchudo Quico do programa. É interessante
que três personagens de uma atração infantil tenham sido vértices de um triângulo
amoroso. Bolaños recebeu VEJA semana retrasada, momentos depois do terremoto
que sacudiu o México:
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VEJA - De onde surgiu a inspiração para o personagem Chaves?
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Bolaños - Foi só olhar em volta. Existem várias favelas na América Latina,
as diferenças sociais são muito grandes. O Chaves é uma criança que não
cresce porque não come. O personagem faz sucesso em qualquer lugar do planeta
onde haja fome.
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VEJA - O senhor tem doze netos. Quantas horas por dia uma criança deve passar
na frente da televisão?
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Bolaños - Acho que as crianças assistem a mais televisão do que deveriam. Mas
essa é uma questão complicada. Em países como o México - e imagino que no
Brasil seja assim também - a televisão é a grande babá da garotada.
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VEJA - Sendo assim, os programas infantis não deveriam ter maior conteúdo
educativo?
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Bolaños - Isto deveria estar a cargo das emissoras governamentais. Quem tem o
objetivo de divertir não tem a obrigação de educar. Não é obrigação do
Chaves ensinar qual é a capital da França.
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VEJA - Que cuidados deve ter um humorista cujo público é composto basicamente
de crianças?
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Bolaños - Sempre evitei fazer piadas com raças, religiões, opções sexuais e
mulheres. Aliás, nos meus programas as meninas sempre são mais inteligentes.
No Chaves, era a Chiquinha que arquitetava os planos mirabolantes.
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VEJA - Existe uma nova safra de comediantes no México que apela para o humor
chulo. Como o senhor vê isso?
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| Bolaños - Não me agrada nem um pouco. Mas acho que essa fase é passageira. Quando sobram piadas chulas, é porque falta talento. E gente sem talento tende a sumir rápido. |